sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Câmara debate sensacionalismo da notícia no caso Eloá

Redação Portal IMPRENSA
Na última terça-feira (11), durante uma audiência, as comissões de Defesa do Consumidor e de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados debateram a "Espetacularização da Notícia" - como está sendo chamado o excesso de participação da mídia em casos policiais - tendo como base o caso Eloá.

Na ocasião, foram apresentados vários vídeos sobre a tragédia que envolveu a adolescente de 15 anos que foi seqüestrada e morta, em setembro deste ano, em Santo André (SP), pelo ex-namorado, Lindemberg Alves, 22. De acordo com o deputado Ivan Valente (P-SOL), as imagens ratificaram que a mídia interferiu nas negociações, atrapalhando a ação da polícia.

"Nós chamamos as emissoras porque tiveram claramente participação no desfecho trágico do caso; quebrou-se o código de ética e se extrapolou os limites em busca de audiência. A informação virou uma grande mercadoria que visa ao lucro. A espetacularização da notícia não contribui com o interesse público e com os direitos da cidadania", disse Valente.

O deputado afirmou, ainda, que as emissoras deveriam reconhecer que existia uma psicopatologia grave e que a transformação do rapaz com transtornos mentais em celebridade, ao vivo, para milhões de pessoas, certamente inflamou a sua personalidade, dilatou o tempo de seqüestro e contribuiu para o fim trágico.

O promotor de Justiça Augusto Rossini, que acompanhou de perto as negociações, confirmou que a influência da mídia ficou clara neste episódio. "Fui chamado lá por exigência do próprio Lindemberg, que queria alguém ligado à justiça e aos direitos humanos para não sofrer retaliações, e ele só acreditou que eu era eu quando dei uma carteirada via TV", contou ele.

"A busca de audiência a qualquer custo não pode ser o único critério. Existe uma ambiência sócio-cultural da mídia de massa e o conteúdo da violência é cada vez maior pela ausência do controle do conteúdo da programação", argumentou o pesquisador sênior do núcleo de mídia da Universidade de Brasília (UNB) Venício Arthur de Lima.

O deputado Ivan Valente reclamou também da falta de divulgação do debate por parte das emissoras que estiveram na audiência. Segundo ele, "esse debate é uma crítica ao tipo de cobertura e de conteúdo que é vinculado na mídia. A idéia é que existe uma impunidade e minha proposta é que duas questões ganhem peso: controle social da mídia pelo Congresso Nacional e renovação das concessões a partir de um balanço de conteúdo", defendeu ele.

Nesse tipo de caso, no qual a comoção nacional é enorme, as redes de TV tentam, a qualquer custo, "dar furos" de reportagem.

A Rede Globo "num furo de reportagem" noticiou no "SPTV" a morte de Eloá, com um detalhe: Eloá ainda estava viva.

A Rede Record "num furo de reportagem" noticiou no "Domingo Espetacular" que houve tiro no apartamento da Eloá antes da invasão da polícia, com um detalhe: não houve tiro.

A RedeTV! "num furo de reportagem" entrevistou no "A Casa é Sua" o seqüestrador Lindemberg, com um detalhe: atrapalhou o trabalho de negociação da polícia.

A Rede Record "num furo de reportagem" entrevistou no "SP Record" o pai de Eloá, com um detalhe: ele era foragido da polícia de Mato Grosso.

A TV Bandeirantes por não ter conseguido nenhum "furo de reportagem" demonstrou "dor de cotovelo" no "Brasil Urgente", que fez uma cobertura extensiva do caso.

O sensacionalismo foi a marca da cobertura jornalística do "Caso Eloá". Programas inteiros com especialistas, cortes na programação, debates e debates. Uma loucura.

Infelizmente, essa não foi a primeira cobertura com essa marca (quem não se lembra do "Caso Isabela Nardoni"?) e, certamente, não será a ultima.


Abs.

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